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Gestão de Passivos

Selic, inadimplência recorde e recuperações judiciais: como renegociar dívida bancária no fim de 2026

Selic em 13,75%, juros futuros em queda após o 1º turno e 9,2 milhões de empresas inadimplentes: o momento pede negociação com número na mão.

08 de outubro de 2026 · 5 min de leitura · Rossetti Pfeifer Advogados

PorClaudia Rossetti Pfeifer· Sócia fundadora
Selic, inadimplência recorde e recuperações judiciais: como renegociar dívida bancária no fim de 2026

Resposta direta

O crédito no fim de 2026 combina juros ainda altos e expectativa de queda. A Selic está em 13,75% desde 16 de setembro, o mercado projeta 13,50% no fim do ano e 12% em 2027, e os juros futuros caíram com força depois do 1º turno. Ao mesmo tempo, a inadimplência das empresas está em nível recorde, com 9,2 milhões de CNPJs em julho segundo a Serasa, e os pedidos de recuperação judicial bateram recorde em 2025. Para quem deve ao banco, o momento favorece renegociar com o contrato revisado e a dívida recalculada, escolhendo com cuidado prazo, indexador e garantias.

O fim de 2026 combina dois movimentos opostos no crédito empresarial. De um lado, a Selic começou a cair e o mercado passou a apostar em juros menores à frente. Depois do 1º turno, os juros futuros despencaram: a taxa do DI para janeiro de 2028 caiu de 13,51% para 12,67% em um só pregão, em 5 de outubro, o Ibovespa subiu 7,7% e o dólar recuou a cerca de R$ 5,00. Bancos internacionais atribuíram o movimento a uma maior chance de ajuste fiscal, leitura que o ministro da Fazenda contestou. De outro lado, a inadimplência das empresas está em nível recorde, e as recuperações judiciais seguem em alta.

Para quem deve ao banco, o resultado é uma janela de negociação, desde que aproveitada com método.

O retrato do crédito

  • Selic: 13,75% desde 16 de setembro de 2026, depois de um ciclo de cortes iniciado em março, quando estava em 15%. A próxima reunião do Copom será em 3 e 4 de novembro, já depois do 2º turno.
  • Expectativas: o Boletim Focus de 5 de outubro projeta Selic de 13,50% no fim de 2026 e 12% no fim de 2027, com IPCA de 5,01% em 2026.
  • Custo do crédito: o juro médio das empresas com recursos livres foi de 24,19% ao ano em agosto, segundo o Banco Central.
  • Inadimplência: 9,2 milhões de empresas inadimplentes em julho, segundo a Serasa, com dívidas de R$ 238,6 bilhões. Entre as causas apontadas estão os juros altos por período prolongado, a receita em desaceleração e o crédito mais seletivo para pequenas empresas.

Recuperações judiciais em alta

Em 2025, a Serasa registrou 977 processos de recuperação judicial envolvendo 2.466 empresas, o maior número da série, com o agronegócio respondendo por cerca de 30% dos casos. Em 2026, grandes empresas recorreram aos instrumentos da Lei 11.101/2005:

  • Casas Bahia pediu recuperação judicial em agosto, com cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas, citando juros altos e restrição de crédito.
  • A Raízen teve seu plano de recuperação extrajudicial homologado em julho, com cerca de R$ 61,4 bilhões e adesão de 81,6% dos credores.
  • O GPA teve a recuperação extrajudicial homologada em 7 de outubro, com R$ 4,6 bilhões, e o prazo médio da dívida passou de 2,1 para 6,4 anos.

A lição para empresas de qualquer porte é que alongar dívida com um grupo de credores, sem a exposição de uma recuperação judicial, é um caminho legítimo e cada vez mais usado. Os critérios estão em recuperação judicial: quando faz sentido.

O que olhar antes de renegociar a dívida bancária

  • Indexador: contratos pós-fixados acompanham a queda da Selic, e prefixados travam a taxa. A escolha depende da curva de juros e do perfil do caixa.
  • Prazo e carência: alongar reduz a parcela, mas aumenta o custo total. O ponto é casar o fluxo da dívida com a geração de caixa.
  • Custo efetivo total: inclui tarifas, seguros e IOF, que hoje chega a cerca de 3,38% em uma operação de um ano. Veja os tributos que subiram desde 2025.
  • Garantias: bancos costumam pedir garantias novas na renegociação. Com o Marco Legal das Garantias, validado pelo STF em 2025, a execução extrajudicial de imóveis e a busca e apreensão extrajudicial ficaram mais rápidas, e o que se oferece em garantia pesa mais.
  • Encargos do contrato antigo: renegociar não impede discutir ilegalidades anteriores (Súmula 286 do STJ). Recalcular antes de assinar evita transformar cobrança indevida em dívida nova. O método está em revisão de contratos bancários empresariais.

E a eleição?

Os dois programas do 2º turno falam em juros menores. O de Lula (PT) promete "criar as condições para uma redução sustentada das taxas de juros", e o de Flávio Bolsonaro (PL) vincula "juros menores e inflação na meta" à redução da dívida pública. O Copom decide de forma independente, e a próxima decisão sairá depois de 25 de outubro. Para a empresa, a eleição muda expectativas, não contratos. Negociar com base no número de hoje e em cenários realistas é mais seguro do que esperar.

Checklist para a negociação

  • Reunir contratos, aditivos, extratos e a planilha de evolução de cada dívida.
  • Recalcular cada operação e separar encargos discutíveis.
  • Projetar o caixa dos próximos 12 a 18 meses com a dívida atual e com a proposta.
  • Mapear garantias já dadas e o que o banco pode pedir.
  • Definir a ordem de negociação: credores com garantia e execução em curso primeiro.

Conclusão

Juros em queda gradual e inadimplência recorde formam o cenário em que bancos e empresas mais renegociam. Quem chega à mesa com a dívida recalculada, o caixa projetado e as garantias mapeadas negocia prazo e custo. Quem chega sem isso tende a aceitar o que for oferecido. Esse é o trabalho de gestão de passivos do escritório.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui análise individual. As informações refletem dados públicos até 8 de outubro de 2026.

Referências jurídicas citadas

  • Comunicado da 281ª reunião do Copom (16/09/2026) e Boletim Focus de 05/10/2026.
  • Lei 11.101/2005, arts. 47 a 72 e 161 a 167 — recuperação judicial e extrajudicial.
  • Lei 14.711/2023 e STF, ADIs 7.600, 7.601 e 7.608 — Marco Legal das Garantias.
  • STJ, Súmula 286 — renegociação e discussão de contratos anteriores.

Conteúdo de caráter meramente informativo, sem oferta de serviços ou promessa de resultado, em conformidade com o Código de Ética e Disciplina da OAB.

Perguntas frequentes sobre este tema

Qual é a Selic hoje?

13,75% ao ano, desde a reunião do Copom de 16 de setembro de 2026. A próxima reunião será em 3 e 4 de novembro, depois do 2º turno. O Boletim Focus de 5 de outubro projeta 13,50% no fim de 2026 e 12% no fim de 2027.

Vale a pena renegociar dívida bancária agora?

Depende do contrato e do caixa. Com juros em queda gradual, a renegociação pode reduzir parcelas e alongar prazo, mas exige comparar indexadores, custo efetivo total (com IOF), garantias exigidas e cláusulas de vencimento antecipado. Renegociar com a dívida recalculada evita consolidar encargos indevidos.

Renegociar impede discutir cobranças abusivas do contrato antigo?

Não. A Súmula 286 do STJ registra que a renegociação ou a confissão de dívida não impede a discussão de ilegalidades dos contratos anteriores.

Quantas empresas estão inadimplentes no Brasil?

Segundo a Serasa Experian, 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes em julho de 2026, um pico da série, com dívidas que somavam R$ 238,6 bilhões.

Recuperação extrajudicial é uma alternativa à judicial?

Pode ser, quando o problema está concentrado em um grupo de credores. Em 2026, grandes empresas como Raízen e GPA usaram a recuperação extrajudicial para alongar dívidas, com planos homologados pela Justiça.

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